A saúde na medicina oriental

 

O conceito oriental de saúde e bem estar nunca é considerado de maneira limitada. Trata-se de um conceito extremamente abrangente que leva em consideração não apenas o estado físico, mas também o mental e o espiritual. Ao analisar um paciente o médico oriental procura obter o maior número possível de informações sobre o doente. Aos olhos do terapeuta oriental, o que importa é o estado de seu paciente enquanto pessoa, e não sua doença. Dentre os pormenores que o médico que segue a linha terapêutica oriental procura obter sobre o paciente figuram não apenas detalhes da saúde física, mas também como ele vive,mora, veste-se e outras informações aparentemente sem qualquer relação com a situação que levou o paciente a procurar o tratamento. Entretanto, como uma colcha de retalhos, cujos detalhes você não consegue distinguir até que se afaste e a veja por inteiro, o estudo completo das queixas dos pacientes poderá ser de enorme importância durante o seu tratamento. É interessante salientar que para o médico oriental, o que importava era a manutenção do estado de sanidade de cada pessoa aos seus cuidados. Na China antiga, os práticos eram remunerados somente enquanto as pessoas sob seus cuidados estivessem saudáveis. Caso alguma delas adoecesse, ele nada recebia até que a saúde dessa pessoa fosse recuperada.

 

Assim, antes que no Ocidente se divulgassem conceitos como “medicina preventiva” ou “medicina holística”, os chineses antigos e outros povos que seguiam métodos de tratamentos semelhantes aos desse povo já conheciam e trabalhavam de acordo com a noção de que a prevenção é a melhor das terapias. Ciente dessa possibilidade, o médico que o avalia pode produzir um reforço nas suas energias, para prevenir a doença antes mesmo que ela possa se intalar. Com outras terapias não convencionais como homeopatia, shiatsu, fitoterapia, aromaterapia, floral de bach etc a medicina chinesa vem chamando a atenção de toda a comunidade médica, que nela encontra soluções para o tratamento de patologias para as quais não se obtem resultados satisfatórios dentro da medicina tradicional alopática. Falta contudo uma compreensão maior dos mecanismos por meio dos quais a medicina chinesa atua na manutenção ou correção dos estados de saúde. Com certeza, os anos que se seguem trarão muitas surpresas positivas, uma vez que as terapias alternativas vem sendo cada vez mais objeto de sérios estudos em todo o mundo na busca do esclarecimento e compreensão dessas ciências.

 

O desenvolvimento da medicina no Ocidente sempre favoreceu o estudo da doença e não do doente. Tanto é que atualmente conhecemos muito sobre os mecanismos de ação das doenças; como elas penetram e atuam no organismo; qual o seu tempo de incubação; quais os órgãos que são atingidos e como são afetados. Os meios de diagnóstico se desenvolveram em um ritmo fantástico. Contudo, não sabemos muito sobre como evitar ou curar muitas doenças que conhecemos. Muitos também são os médicos que hoje não são capazes de fazer um diagnóstico adequado sem recorrer a exames complementares como radiografias, tomografias, sorologias e outros exames, que, conforme sua própria definição, deveriam complementar um diagnóstico do profissional que os requisitou. Comisso, os custos de uma avaliação médica tornam-se cada vez maiores e distantes de uma expressiva parcela da população que se ressente de profissionais capazes de lhes dar mais atenção do que solicitações de exames ou prescrições de medicamentos que aliviam os sintomas das enfermidades. A medicina chinesa privilegia os recursos tecnológicos em detrimento da perspicácia humana.

 

Percebe-se, também, na cultura oriental uma grande influência de aspectos religiosos sobre os mais variados segmentos do pensamento e do modo de vida dos povos. Desde a culinária e astrologia até o pensamento médico, temos exemplos de que a espiritualidade era encarada no Oriente não como um plano distante da vida cotidiana, mas como parte integrante de todas as manifestações diárias da vida de uma pessoa e de uma comunidade. Dessas práticas filosóficas e religiosas, o taoísmo é sem dúvida uma das mais antigas e presentes representações dessas influências. Foi durante o século VI a.C. que o taoísmo desenvolveu-se como escola, juntamente com outra rica corrente filosófica na China, o confucionismo. Enquanto esta última se ocupava claramente da estrutura sócia, o taoísmo voltava-se para a observação da natureza e a descoberta de um caminho espiritual, o Tao. Aparentemente as duas correntes filosóficas representavam pólos opostos de um pensamento cultural. Na China entretanto esses conceitos, assim como tantos outros, sempre foram considerados como partes opostas de uma mesma estrutura que, para se manter e prosperar, deveriam manter-se em constante equilíbrio. O fraco deve ser sustentado pelo mais forte, o dia não existe sem a noite. Mas o mais importante aspecto presente em todas essas filosofias é o seu caráter prático, em que a experiência pessoal é mais valorizada do que a ideia em si. Diz um provérbio que: “o sábio não deve habitar exclusivamente o mundo espiritual, mas preocupar-se igualmente com as questões do mundo”.

 

O taoísmo nasceu com Lao Tsé (o velho mestre) a quem se atribui a autoria do principal texto taoísta, o Tao Te Ching, que apresenta uma série de aforismos expressando a existência de uma realidade última que unifica todas as coisas, os seres e os fatos que observamos. Essa realidade é o tao, um processo em fluxo contínuo de alterações que reflete o Universo em seu aspecto cósmico, isto é, o de um caos organizado. Dessa forma, o taoísmo não vê o Universo como algo estático, mas sim em constante movimento e transformação. Também encontramos no confucionismo essa estrutura transformadora do Universo, que é comparada por Confúcio a um rio que “a tudo segue, fluindo sem cessar; dia e noite”, mas sempre pelo caminho mais fácil.

 

Tal concepção de um Universo dinâmico encontra em outro antigo texto chinês, o “I Ching – o Livro das Mutações”, uma forma prática de se entender todas as variações que as idéias e noções presentes nas imagens do Yin e Yang manifestam. O sinólogo Richard Wilhelm, que traduziu esse livro, descreve-o como “como obra da qual o homem não deve se manter distante. Seu Tão ( o do Homem Superior ) está em perpétua transformação… não se pode contê-lo numa regra. Aqui só a mudança atua”. As mutações descritas no I Ching devem-se à característica que todas as coisas possuem de se transformarem e se desenvolverem.

 

 

 

“Para contrair alguma coisa, devemos primeiro expandi- la.

 

Para enfraquecê- la, devemos primeiro fortalecê-lá.

 

Para derrotá-lá, devemos primeiro exalta-lá.

 

Para despojá-la, devemos primeiro presenteá-la.

 

Está é a Sabedoria Sútil.”

 

 

 

Isso significa que, para que se mantenha o equilíbrio, seja para assegurar a existência dotemos e do Universo, seja para manter o estado de saúde de um homem, é necessário que se crie uma harmonia entre as forças que se encontram em oposição. No taoísmo, essas forças opostas foram denominadas de Yin e Yang.

 

 

 

“O Yang, tendo alcançado seu apogeu, retrocede em favor de Yin.

 

O Yin.

 

 

 

O Yin, tendo atingido seu apogeu, retrocede em favor de Yang.

 

 

 

O Yang retorna ciclicamente ao seu ao seu início.

 

 

 

O Yin atinge se apogeu para ceder ao lugar de Yang…”

 

 

 

Esse ciclo de mudanças e harmonia entre essas duas forças é maravilhosamente simbolizado pelo antigo diagrama chinês denominado de Tai Chi, “O Grande Princípio Primordial”, representado por um círculo dividido por uma linha sinuosa em luz e escuridão, o Yin e o Yang.

 

Ying-Yang

 

Na escrita oriental, muitas palavras representam uma idéia ou um pensamento. Os sinais gráficos para Yin e Yang seriam originalmente a representação dos lados sombreado e ensolarado de uma montanha. Com o tempo, esse significado passou a se estender a outros arquétipos. Yang passou a representar o Céu, a luminosidade, o forte, masculino; enquanto Yin seria a Terra, a escuridão, o fraco, o feminino. Aspectos antagônicos porém complementares de uma de uma mesma energia primordial de que seriam compostas todas as substâncias materiais ou imateriais como as idéias e emoções. O Tao chinês foi absorvido por outras culturas orientais, como no Japão, em que adquiriu a forma da expressão “Dao” que a seguir foi contraída no sufixo “Dô” como encontrado em palavras conhecidas como judô, kendô, etc. Em todas, o seu significado literal é “caminho”, porém, como bem se pode notar, seu conceito é muito mais profundo e rico.

 

 

 

“O Céu está acima e cheio de movimento. É portanto Yang.

 

A Terra está abaixo e em repouso. É portanto Yin.”

 

 

 

As ações dos sábios taoísta decorrem de uma sabedoria intuitiva e espontânea, concepção essa que se refere também ao modo com que o acupunturista deve avaliar o pulso de seu paciente. Sua ação deve ser harmoniosa com o que sente, adaptando-se aos movimentos que a energia demonstra e não interferindo sobre eles. Essa forma de ação é denominada de Wu Wei, a “não ação”, que não significa não fazer nada ou a inércia, mas deixar que tudo ocorra naturalmente para que sua natureza ou a interpretação seja satisfatória. Esse é um assunto ao qual retornaremos mais adiante.

 

 

 

A medicina oriental demonstra possuir profundas raízes no taoísmo. Entretanto, o próprio taoísmo aparenta ter raízes ainda mais antigas, provavelmente na Índia e no Tibete, onde se desenvolveram as artes de cura mais antigas conhecidas, a medicina ayurvédica, da Índia, e a tântrica, do Tibete. O estudo da Pulsologia chinesa pode parecer tão difícil por fazer parte de uma cultura que se desenvolveu de forma peculiar, diferente da cultura ocidental. Em sua complexidade entretanto reside a própria simplicidade.

 

“O Tao que se pode sondar não é o verdadeiro Tao.

 

O Tao que se pode conceber não indica o Tao.

 

No Tao está a origem do Tao.”

 

Assim, o que a medicina oriental procura fazer é compreender as regras que regem a maleabilidade dos resultados, procurando antever sua direção e guiar os resultados em direção ao objetivo pretendido: curar as doenças e preservar a saúde.

 

Com esse objetivo, os médicos orientais procuravam explicar, conjugando lógica e sensibilidade, o que sentiam ao palpar os pulsos. Os poemas partem de princípio semelhante. Para compreender o que eles nos dizem, devemos sentir as palavras daqueles que os escrevem. No Japão, são compostos poemas curtos e com o menor número de palavras possíveis ou necessárias, de modo a se expressar uma idéia ou um sentimento profundo. São denominados de Hai-Kai.

 

 

 

“Folhas ciando

 

tocam-se umas nas outras;

 

A chuva toca na chuva.”

 

 

 

O poema está carregando de forte impressão sensorial. É preciso que suas palavras sejam “sentidas” permitiu-se libertar das amarras dos pensamentos e sentidos que limitem a sua compreensão completa. Somente assim pode-se entender o espírito de quem o escreveu. Isso significa mais claro ao analisarmos algumas das descrições de pulsos citadas, como a que se encontra no início deste capítulo, por exemplo. Os mestres antigos sempre souberam que a linguagem possuía limitações para descrever os pulsos. Não se trata apenas de dizer se um pulso estava forte ou fraco, ou de saber se o seu batimento apresentava ou não um ritmo regular. As pulsações refletiam não apenas esses aspectos, mas o estado de energia dentro dos meridianos, dos órgãos e das vísceras do corpo, assim como a situação emocional e espiritual do paciente. Isso quer dizer que a Pulsologia ao ser praticada, realizava uma investigação completa e individual de cada pessoa, a qual não era composta apenas de seu coração ou de seu fígado, nem era apenas um reservatório de emoções.

 

A perspectiva oriental considerava cada ser humano como um todo, possuidor de capacidades físicas, mentais e espirituais que interagiam entre si de forma dinâmica e harmônica, como nos movimentos do Tai Chi Chuan — exercícios de artes marciais chinesas em que as energias primordiais do Universo seguem um ciclo incessante de transformações, vistos na sequência de seus movimentos. Para isso o médico oriental deveria ter acesso a mais informações do que aparentemente lhe é apresentado ao tocar com os dedos os pulsos de seu paciente. É preciso que ele saiba “ver com os dedos”. É preciso que ele comece a se perguntar: como descrever algo que se deve “ver com os dedos” ?

 

Dois Hemisférios

 

Com os avanços da neurologia e da neurofisiologia, sabemos que o cérebro humano é dividido em duas partes, os hemisférios cerebrais direito e esquerdo. Mais ainda, descobrimos que há uma diferença entre as funções que cada um dos hemisférios exerce. O lado esquerdo do cérebro é responsável pela fala, pelas habilidades numéricas, pela escrita, pela leitura, pelo raciocínio lógico e pelo controle dos movimentos da parte direita do corpo. O lado direito, por sua vez, trabalha com funções como a consciência musical, lida com a perspectiva e as formas tridimensionais, a consciência artística, a imaginação, a intuição e o controle dos movimentos da parte esquerda do corpo. Por fim, os dois lados comunicam-se por um complexo de fibras nervosas que existe entre ambos denominado de corpo caloso.

 

 

 

Hemisfério esquerdo

 

  • Controle do lado esquerdo do corpo
  • Lógica matemática
  • Fala
  • Leitura
  • Escrita
  • Raciocínio

 

 

 

Hemisfério direito

 

  • Controle do lado direito do corpo
  • Reconhecimento facial
  • Perspectiva
  • Criatividade
  • Consciência musical
  • Intuição

 

 

 

A maneira com que se percebe o mundo depende muito do hemisfério cerebral que processa as informações recebidas. Poderíamos dizer que as diferenças entre as culturas oriental e ocidental não se devem apenas por estarem em hemisférios cerebrais diferentes. Ao tomarmos como exemplo a caligrafia, percebemos que no Ocidente, o hemisfério esquerdo é responsável primário pela escrita. Um objeto ou ideia é identificado por um conjunto de letras compondo uma palavra que o identifica.

 

 

 

No Oriente, a escrita é composta por símbolos que podem designar não apenas um objeto, mas também a ideia que o representa. Assim, cada ideograma não representa apenas uma palavra, mas todo um conceito em si, um “Ideo – Grama”. Existe nessa forma de grafia uma integração muito grande entre os lados direito em que encontramos a criatividade, e o esquerdo, que controla a escrita e a leitura. Não apenas na escrita, mas toda uma bagagem cultural recebeu influência direta desse modo diferente de se apreciar o mesmo Universo, porém sob pontos de vista diferentes.

 

 

 

Vez vem a movimentar o próprio Tao, gerando todo o Universo. Mais do que elementos materiais e palpáveis, os cinco elementos seriam na realidade cinco movimentos ou mudanças nos padrões da energia do Tao e que provocariam a formação do Cosmos.

 

 

 

Princípios da medicina chinesa

 

Os cinco elementos e os zang-fu

 

A teoria dos cinco elementos é um dos mais importantes temas da medicina chinesa, servindo, juntamente com a teoria das energias yin e yang, como base fundamental de estudos e de tratamento dos pacientes. Os cinco elementos, também denominados de cinco movimentos ou cinco mutações, são representados como os constituintes menores de todo o Universo. Os mitos da criação derivados de componentes arquetípicos ou simbólicos universais são um conceito presente nas mais diversas civilizações.

 

O filósofo grego Heráclito já dizia em sua época que o Universo era composto por unidades diminutas e indivisíveis. Os cientistas descobriram posteriormente que toda a matéria existente é composta de fato por estruturas fundamentais, os átomos. Atualmente, sabemos que os átomos são compostos por partículas ainda menores, os elétrons, prótons e nêutrons, e que esses podem ser divididos em componentes ainda menores, restando no fim aparentemente apenas uma forma de energia primordial.

 

Já em épocas mais antigas, os antecessores dos físicos e químicos contemporâneos, os alquimistas, diziam ser o Universo composto por quatro elementos básicos: fogo, água, terra e ar. No oriente também essa concepção existia, porém, em vez de quatro, seriam cinco elementos primordiais.

 

Um antigo conto chinês personifica cada um desses elementos na forma de cinco veneráveis sábios surgidos de uma bola de caos suspensa no vazio do Tao:

 

“Antes de o Céu e a Terra se separarem tudo era uma bola de névoa chamada Tao.

 

Naquela era, os espíritos dos cinco elementos tomaram forma e se desenvolveram em cinco ancestrais.

 

O primeiro chama-se ancestral amarelo, mestre da Terra

 

O segundo, chamado ancestral vermelho, era mestre do Fogo

 

O terceiro era o ancestral negro, mestre da Água

 

O quarto era chamado príncipe madeira, mestre da madeira

 

O quinto, a mãe Metal, era a Mestra dos Metais

 

Ora, eis que esses cinco ancestrais colocaram em movimento o espírito primordial do qual haviam surgido, de modo que a água e a terra desceram, os céus se elevaram e a terra mergulhou nas profundezas

 

E a água formou rios e lagos, surgiram montanhas e planícies.

 

Os céus se expandiram e a terra dividiu-se. Surgiram o Sol, a Lua, as estrelas, a areia, as nuvens, a chuva e o orvalho.

 

O Ancestral amarelo colocou em andamento o mais puro poder da Terra. Então surgiram a grama e as árvores, os pássaros e os animais, bem como as gerações de cobras e insetos, de peixes e tartarugas.

 

O príncipe madeira e a mãe metal juntaram a luz e as trevas, e assim surgiu a raça humana, com homens e mulheres.

 

Assim surgiu gradualmente o Mundo…”

 

 

 

Portanto, na concepção oriental os elementos são as emanações do Tao que entram em movimento cíclico, o que por sua vez vem movimentar o próprio Tao, gerando todo o Universo. Mais do que elementos materiais e palpáveis, os cinco elementos seriam na realidade cinco movimentos ou mudanças nos padrões da energia do Tao e que provocariam a formação do Cosmos.

 

Interessante aqui é a relação desse conceito antigo e as declarações do famoso cientista Albert Eintein quando a existência de cinco estados básicos em que a matéria se apresenta no Cosmos. Além dos estados sólido, líquido e gasoso, tão conhecidos, haveria ainda o estado plasmático, de elementos expostos a altíssimas temperaturas, como as estrelas; e um último estado de matéria, que Einstein havia descrito apenas em teorias e que existiria a temperaturas extremamente baixas, num grau zero absoluto de temperatura, quando então as partículas elétricas dos átomos deixariam de se mover, permanecendo estáticas. Até recentemente, esse estado parecia tratar-se apenas de uma teoria que não poderia ser comprovada. Contudo, por meio dos avanços obtidos no desenvolvimento de equipamentos de alta tecnologia, alguns cientistas conseguiram congelar um átomo, comprovando dessa forma as teorias que afirmavam a existência de um quinto estado da matéria. Assim os chineses antigos estariam mais certos que os alquimistas e gregos ao dizerem que o Universo possuía cinco e não  quatro elementos.

 

Contudo, como dito anteriormente, mais do que substâncias materiais ou sutis, os cinco elementos são a manifestação energética dos elementos que representam. Muitos ficam confusos ao travarem o primeiro contato com esse conceito. Não é fácil identificarmos a presença desses elementos em nossos corpos nem a maneira como eles influenciariam nosso estado de saúde ou doença.

 

É fácil aceitarmos, por exemplo, a afirmação de que nossos corpos são formados pelo elemento água. Sabemos de fato que ele é composto por até 60% desse líquido. Ao sentirmos nossa temperatura, podemos aceitar a existência de um fogo interior. Com o desenvolvimento da medicina ortomolecular, aceitamos a existência dos elementos metal e terra na forma de oligoelementos como zinco, cálcio, fósforo, ouro e outros. Mas ao chegarmos a madeira, nossa razão começa a soar um alarme de descrença. Mas isso é por não entendermos ainda que os orientais não se referem a esses elementos de forma concreta, mas sim no sentido figurado.

 

Sendo assim, o elemento fogo é a manifestação da energia yang em sua plenitude, enquanto o elemento água é a manifestação do yin pleno. O elemento madeira é a energia yang com a presença de uma parcela menor de yin, e o elemento metal é a energia yin com uma parcela menor de yang. Já o elemento terra é o equilíbrio entre as energias yin e yang. Ou seja, cada um dos elementos representa as variações em qualidade e quantidade com que podemos encontrar essas energias no corpo. Podemos entender mais ainda quando definimos a personalidade das pessoas por meio desses elementos.

 

Um indivíduo madeira é o aparentemente calmo, mas que por qualquer motivo se enraivece. A pessoa de fogo é o agressivo por natureza, que “não leva desaforo pra casa”. A personalidade metal é mais reservada, porém comunicativa e jovial, enquanto a pessoa de água é a timidez personificada. O equilíbrio perfeito seria representado pelo individuo da terra, que possui as qualidades associadas de yin e yang e o controle sobre sua emoções.

 

Na concepção oriental, esses estados da matéria estão em constante movimento e equilíbrio, onde cada elemento concebe a existência de outro, sendo por sua vez controlado por um terceiro. Um verdadeiro ciclo em que se estabelece um autocontrole, impedindo que um dos elementos exista em maior ou menor quantidade. Na filosofia mística oriental, esses meios de auto-regulação são denominados de ciclos de Criação e de Dominação dos Cinco Elementos

 

 

A madeira ao queimar gera o fogo. Quando a fogueira se apaga restam as cinzas que se misturam a terra. A terra gera as rochas e os metais. Das pedras e minerais brotamas fontes de águas, que nutrem as plantas e árvores que fornecem a lenha para as fogueiras.

5Elementos

 

A água apaga o fogo, que derrete os metais, com os quais são forjados machados que derrubam as árvores e cortam a madeira. As raízes das plantas abrem o solo absorvendo sua energia. A terra sorve a água das chuvas, impedindo que esta se espalhe.

 

Assim, pela lei da Criação e Dominação, os Cinco Elementos devem manter-se sempre em constante e harmonioso controle, não podendo haver escassez  que venham a perturbar o equilíbrio do Mundo ou do Homem. É de acordo com esse princípio que se estabelece uma das diversas leis que ajudam a compreender o controle que existe entre as energias do corpo. Com base nesse sistema de símbolos, podemos começar a entender a importância do ciclo das energias dentro da filosofia oriental. Tal simbolismo pode ser comparado à imagem da cobra que morde a própria cauda denominada “ourobouros” que representa a imortalidade e a imensidão do Universo.

 

Segundo os princípios da medicina oriental, cada um desses cinco elementos se manifesta no ambiente de várias formas, por exemplo:

Quadro

Para cada aspecto da natureza exterior, os chineses apresentaram um dos cinco elementos, os quais em última análise são variações das energias primordiais yin e yang. Durante o ciclo das energias vitais, essas energias primitivas se transforma entre si, gerando os estados intermediários, como no ciclo das estações em que o verão yang se transforma em inverno yin, tendo contudo que transitar como outono, mais yin do que yang.

 

E assim como os elementos primordiais manifestam-se no plano material da natureza, eles também se manifestam diretamente no corpo humano, desde seus órgãos internos até suas propriedades cognitivas e emocionais distintas.

 

Os cinco elementos no homem

 

Os órgãos e vísceras apresentados em relação aos cinco elementos são classificados segundo a anatomia chinesa em órgãos ocos e órgãos cheios. O órgãos cheios são denominados de Zang, enquanto os órgãos ocos ou vísceras são denominados de Fu.

 

Os cinco Zang são: coração, fígado, rins, baço e pulmões, que tem a função de produzir, transformar e armazenar a energia, o sangue, os líquidos internos, as energias ancestral e adquirida, assim como a energia Shen. Sua característica energética Yin.

 

Os cinco Fu são: intestinos delgado e grosso, estômago, bexiga urinária e vesícula bilear. São receptáculos de transição e elaboração, porém não podem armazenar energias ou essências. São órgãos Yang.

 

Apesar de representarem estruturas anatômicas idênticas no Oriente quanto no Ocidente, suas funções fisiológicas, bem como suas manifestações patológicas, não podem ser consideradas como as mesmas nas duas escolas por uma questão de interpretação. Ao observarmos um dos esquemas que os orientais utilizavam para representar a anatomia humana imaginamos que ou eles não tinham noção alguma de anatomia ou não sabiam desenhar bem. Qualquer um que já tenha visto um atlas de anatomia sabe que o baço não é um órgão de forma alongada como mostrado. Nem o fígado e os pulmões se parecem com um espanador ou uma bananeira invertida. Então por que teriam os antigos representados os órgãos assim tão diferentes? Alguns dizem que isso se deve ao fato de os chineses não darem importância ao estudo do interior do corpo humano, já que eles se diferenciavam de acordo com seu espírito. Não eram considerados iguais um mendigo e um imperador. Apesar de parecerem iguais, as diferenças entre eles eram infinitas, pois navegavam em mares de energias de karmas diferentes. Outros ainda comentam que, também por essa razão, não se faziam estudos de anatomia ou de vivissecção.

 

Ocorre que essa descrição dos órgãos teria sido proveniente das terras tibetanas elevadas. Naquelas regiões, era difícil sepultar os mortos, pois as terras eram poucas, e usadas mais para a agricultura e pecuária. Não havia rios onde se pudessem depositar os corpos, e a pouca água que existia tinha que ser preservada. A cremação dependia de lenha, que era reservada para os tempos de rigoroso inverno. Assim, o ritual funerário mais usual era o desmembramento do cadáver, que tinha suas carnes oferecidas as aves.

 

Por meio da observação e comparação com os fenômenos naturais é que se baseia em grande parte o conhecimento que a medicina oriental tem sobre o corpo humano. Com isso pode-se ter uma análise do ser humano como um todo integral, mas perdeu-se uma descrição da natureza concreta do funcionamento do organismo humano. Para os chineses, os órgãos tinham além de uma função física uma função energética, da qual dependia a circulação das energias pelo corpo. Mas atualmente os conhecimentos orientais tem sido cada vez mais analisados de um ponto de vista mais racional, assim como conceitos estritamente regidos pela necessidade experimental do Ocidente se abrem a uma interpretação mais subjetiva. Pontos de vista tão diferentes podem ser submetidos a uma análise conjunta, capaz de buscar a integração na interpretação de seus dados e incorporá-los a um diagnóstico mais preciso do estado de saúde do paciente.